sexta-feira, 29 de maio de 2009

Liberdade

Liberdade, eis o nome curioso para um não menos curioso poema, possivelmente dos mais conhecidos e citados deste vulto da literatura, Fernando Pessoa ortónimo. Ainda que pareça um poema banal e até divertido do que nos permite a liberdade humana, uma leitura mais atenta levar-nos-à a outros portos, e mostrará o reverso da medalha. Parece-me este poema de uma grande ironia, uma vez que outros textos apontam para um Pessoa longe do que este poema agora pinta - um Pessoa tipo "chevalier de pas", que como todas as crianças sonha um mundo em que é uma prazer não cumprir o dever...


Pintura de Almada Negreiros

Podemos pensar em colocar as lentes do estoicismo. Quem é o estóico? O verdadeiro estóico é aquele que obedece à lei natural reconhecendo-se como uma peça na grande ordem e propósito do universo. O que é que isso tem ver? Para eles tínhamos todos um destino já traçado, éramos predestinados. A nossa felicidade perante a nossa predestinação consiste no dizer sim a esse mesmo destino. Mais nos apercebemos dessa ironia se pensarmos no grande Alberto Caeiro que acaba por "comer por tabela" por ser o heterónimo de Pessoa que renega o dever. É portanto uma auto-crítica este poema,e bem assim, uma exortação. Em poucas palavras, Pessoa finge sentir o que escreve, mas não o consegue escrever. Não consegue verbalizar. Desta maneira os leitores sentem nem uma coisa nem outra, mas apenas o que ele não sentiu nem escreveu. Ganda maluco =)
Se virem que tal leiam outra vez o que escrevi. Se tiverem dúvidas sobre a veracidade das minhas palavras, perguntem ao poema. Não a este, mas a outro, não menos conhecido: Autopsicografia: «O poeta é um fingidor\bla bla bla»

Poderia continuar a falar discorrer sobre, mas tenho que ir. «Ai que prazer\ não cumprir um dever» mas se afinal ele fala ironicamente, se calhar tem todo o sentido que o cumpramos, bem como tem sentido que leiamos os livros que não nos apetecem ler...
Um aparte. Perguntei à tia Wiki quando é que Pessoa escreveu este poema, e ela disse-me que tinha sido a 16 de Março de 1935. Sabendo a data, começa a ter sentido a parte das finanças, uma vez que António de Oliveira Salazar se adentrou na política pouco antes, a partir de 1927, precisamente com essa pasta.

Na parte em ele fala de Cristo, não quero supor que se mantenha a ironia . Isso daria para outro post. Seguramente maior =)

Sem mais delongas, até breve.



Liberdade
Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa


Há coisas fantásticas não há?

2 comentários:

Bárbara disse...

Liberdade essa grande amigalhaça que nem sempre nos parece dar jeito, mas que sempre nos refugia quando tudo parece correr mal para o nosso lado =)

O Nandito.... Excelente como sempre...

Maria disse...

Ola Cristovão.
É a Maria, do hi5 (lol) é a descriçao mais simplista que posso dar, espero que te lembres de quem sou =) passa no meu blog...
Um beijo e e Boa noite!

" Sê plural como o universo" - Fernando pessoa ( a preposito da fragmentaçao do eu e da sua "tripla" personalidades, posso considerar assim, Pessoa é o génio da literatura portuguesa, por falar em Pessoa, foi matéria que calhou no exame de portugues)

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